152 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? Pour citer cet article, to quote this article, para citar este artigo : Izadora Silva Pimenta, « Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? », Sur le journalisme, About journalism, Sobre jornalismo [En ligne, online], Vol 10, n°2 - 2021, 15 décembre - december 15 - 15 de dezembro. URL : https://doi.org/10.25200/SLJ.v10.n2.2021.446 Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? Izadora Silva Pimenta Doutoranda em Linguística Digital e Aplicada TU Darmstadt/Universidade Estadual de Campinas Alemanha izadora.pimenta@gmail.com E m 27 de abril de 2014, durante uma partida pelo Campeonato Espa- nhol entre o Barcelona e o Villar- real, o jogador brasileiro Daniel Alves, que, na época, atuava pelo Barcelona, foi alvo de um ato de racismo vindo da torcida do time rival. Aos 30 minutos do segundo tempo, durante uma cobrança de escanteio, um torcedor atirou uma bana- na em direção ao jogador, que, por sua vez, pegou a fruta, comeu e continuou a partida, ato visto e aplaudi- do como uma maneira de ignorar o racismo implícito naquele gesto. O episódio se tornou notícia mundial e, tão logo, desencadeou a campanha Somos Todos Macacos, criada por outro jogador, Neymar, em parceria com a agência de publicidade Loducca1. A campanha foi disseminada em redes sociais como o Facebook, o Twitter e o Instagram por famosos e anônimos, sus- tentada pela hashtag #SomosTodosMacacos, geral- mente segurando bananas ou macacos de pelúcia, com o objetivo de demonstrar apoio ao jogador após o racismo sofrido e também de impor o pensamento de que todas as cores e raças ocupam o mesmo es- paço na sociedade. No entanto, o próprio Alves se posicionou contra a campanha, já que não pretendia transformar o caso em publicidade e tampouco con- cordava com a alcunha de macaco - em entrevista à revista Veja, ele também chegou a declarar que ‘não era negro’ e, sim, pardo2. License: CC BY-NC-ND 4.0 International - Creative Commons, Attribution, NonCommercial, NoDerivatives https:// creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ 153Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 Devido à forte presença deste caso nas redes, a grande maioria dos estudos feitos sobre ele, até o momento, focam na campanha realizada após o ato de racismo. Eles tratam, principalmente, da capa- cidade de amplitude a partir da hashtag (Campos e Machado, 2014; Neto, 2018) e da reafirmação do discurso por meio da campanha (Santos, 2014). Este trabalho, contudo, tem como objetivo a busca por elementos de Julgamento (Martin, White, 2005) em textos jornalísticos publicados de forma online no Brasil, a respeito do episódio de racismo sofri- do por Alves, com enfoque nas vozes trazidas pelos repórteres nesses textos. A pesquisa se trata de um fragmento da minha dissertação de mestrado (Sil- va Pimenta, 2019), na qual trabalhei em um corpus com 21.387 formas, 1.014 sentenças e 25.127 palavras construídas a partir de 65 artigos de hard news. Des- taco a importância para essa pesquisa de entender como o ato de racismo e a resposta dada por Alves foram relatados pela imprensa - e a tensão entre a ofensa no ato e a ofensa relatada. Pude observar que alguns padrões de represen- tação do racismo no futebol estão presentes na im- prensa e na sociedade brasileiras. Este foi um resul- tado obtido com a ajuda de uma combinação entre vários campos de estudos. Do seu lado linguístico, os estudos de Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) (Halliday e Matthiessen, 2014) e o Sistema de Avalia- tividade (Martin e White, 2005) foram combinados para trabalhar a partir de uma perspectiva de análise de discurso baseada em corpus. No entanto, a pesqui- sa também se baseia em uma literatura proveniente da sociologia do esporte e a respeito dos fenômenos midiáticos em si, estes que ajudaram a construir o contexto (Halliday e Matthiessen, 2014) no qual a linguagem utilizada está posicionada. Para este artigo, destaco a parcela do corpus obtido que se trata da cobertura da imprensa do caso de Daniel Alves, que apontou algumas ques- tões como a ‘ocultação’ de outros casos de racismo no esporte; uma democracia racial ficcional (Gui- marães, 1995); a definição de racismo como algo praticado apenas por algumas peças do sistema e a desconsideração do termo como um ato crimino- so, aliviando o impacto social e legal da questão. Os dados também mostram que a atitude de Daniel Alves - que, na ocasião, foi comer uma banana que lhe fora atirada e continuar o jogo - é elogiada pela imprensa e colocada em antagonismo com outros casos nos quais jogadores se posicionaram imedia- tamente contra o racismo sofrido. Os resultados apontam que o discurso midiático opera como fator de reforço para padrões de repre- sentação sobre o racismo no futebol e seus aspectos presentes na sociedade. Aspectos sociológicos que emergem da linguagem em uso, ao mesmo tempo in- fluenciada por seus contextos e ideologias (Eggins, 2004). Futebol, racismo e linguagem Reis e Escher (2006) nos trazem a ideia de que é im- portante que os estudos acadêmicos sobre futebol “levem em conta as mudanças que o futebol sofreu nos últimos anos, tanto em termos de organização quanto em aspectos econômicos e sociais” (Reis e Escher, 2006: 51). Portanto, segundo os autores, o futebol deve ser lido da sociedade e não o contrário. Isso ocorre porque os aspectos sociológi- cos que cercam os locais onde as partidas são disputadas e midiatizadas, também afetam o desenvolvimento do que ocorre no campo - por exemplo, quando falamos sobre o tema do racismo no futebol. Por racismo, entende-se que esta é uma questão estrutural e intrínseca da sociedade brasileira. Como nos aponta Almeida (2019: 22), o racismo é “uma for- ma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes”. Raça, por sua vez, é compreendida enquanto uma construção do imaginá- rio social que “possui efeitos nas formações de identi- dades, relações sociais e na sociedade como um todo” (Gillborn e Ladson-Billings, 2020). No Brasil, diferenças reais e imaginárias, como ca- racterísticas fenotípicas (Munanga, 1996), tornaram-se a base para a construção do racismo na sociedade, mas há uma questão presente que prega por uma suposta democracia racial (Guimarães, 1995), construída em uma falsa ideia de que processos como a miscigena- ção e a ausência de políticas segregacionistas levariam todos a viver condições igualitárias no Brasil, que faz com que, na maioria dos casos, a existência do racismo seja negada nessa sociedade. Entretanto, é preciso entender que existem lu- gares demarcados a partir de relações sociais que se formaram ainda no período colonial brasileiro. Como Gonzalez (1982) aponta, há uma “evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados” (Gonzalez, 1982: 15), o que também le- vou a um padrão de isolamento econômico e socio- lógico dos negros (Fernandes, 2008). No futebol brasileiro, há muitas questões que le- vam a sociedade brasileira a acreditar que é um es- paço de democracia racial e também um espaço sim- bólico (Helal e Gordon Jr, 2001) para que os negros surjam além de uma carreira no futebol. Enquanto isso, estudos como Florenzano (2017) já mostraram que, mesmo quando a mídia brasileira falava sobre o rei do futebol brasileiro, Pelé, havia um grande nú- 154 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? mero de expressões racistas usadas pelos escritores para representar o jogador. Para discutir as relações raciais no futebol, temos que saber que o esporte é, a priori, inserido dentro de uma sociedade predominantemente capitalista, bem como é composto por diversos elementos que carac- terizam este aspecto (Reis e Escher, 2006). A partir do momento no qual observou-se que era possível que os negros ascendessem por meio do esporte, essa ideia também se popularizou para seus similares. Tudo começa com um sonho e uma ideia de superação por meio do esporte: a meritocracia ainda é preponderan- te, como nos lembram Reis e Escher (2006: 30). Isso faz com que muitos garotos - geralmente, negros e po- bres - ao observarem a idolatria em torno de craques que vieram de origens semelhantes, apostem no “mito da ascensão social pelo esporte, que é constantemente enfatizado pelos meios de comunicação” (Reis e Es- cher, 2006: 30). O artigo de Tonini (2013) traz algumas conclusões preliminares de sua pesquisa de doutorado, a respeito do racismo sofrido por brasileiros no futebol estran- geiro ressaltando que a migração de jogadores para ou- tros países está relacionada a alguns fatores como: uma oportunidade de ascensão na carreira; ser valorizado enquanto atleta; jogar ao lado de atletas consagrados; e conquistar fama e dinheiro. Entretanto, estes jogado- res, por mais que vivam em outros locais são sempre vistos e também sempre se sentem como estrangeiros. É preciso lembrar que, na visão do pesquisador, o ra- cismo na Europa é mais explícito e destinado a todos aqueles que possuem origem e sangue negro (Tonini, 2013). No futebol, isso se torna ainda mais explícito por meio das liberdades adquiridas pelos torcedores, amparados pela falta de punição severa, que utilizam os estádios e também se utilizam da desculpa da lin- guagem emocional do futebol para demonstrar seus discursos nacionalistas (Silva Pimenta, 2019). O racismo no futebol tem fortes raízes na violên- cia verbal. E, como aborda Reis (2006), a violência no futebol encontra suas bases na sociedade na qual ela se encontra, bem como na “formação do indivíduo” e de seu “entorno social” (Reis, 2006: 16). Há a “disse- minação de uma cultura de que a violência e o espor- te sempre caminharam juntos” (Reis, 2006: 17), fato que trabalha por agravar mais ainda esses processos. Assim, a linguagem trabalha por discursivizar formas de preconceito, de exclusão, de coerção e de violência. Uma das violências mais comuns que os brasileiros ne- gros sofrem ao jogar na Europa é serem comparados com macacos, o que é definido da seguinte forma por Giglio, Tonini e Rubio (2014): “Utilizar a metáfora animal para representar os brasileiros significa bestializar-nos, retirar-nos a condição humana. Indiretamente, faz uma referência à origem africana de nossa formação étnica, assim como à escravidão a qual foram submetidos os negros na história moderna” (Giglio et al, 2014: 282). A edição de 2018 do relatório da Discriminação Ra- cial No Futebol (Manera e Carvalho, 2018), organizado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol e pelo Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/PROREXT buscou analisar casos de racismo no futebol brasileiro, bem como de preconceito e dis- criminação com atletas brasileiros no exterior, refe- rentes ao período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2017. Os dados foram coletados na mídia nacional e internacional. Foram identificados 69 casos envol- vendo o futebol, sendo 51 de discriminação racial, 61 em solo brasileiro e 08 em outros países envolvendo atletas brasileiros (Manera e Carvalho, 2018: 14). Os autores comentam que, embora seja possível identifi- car que estes casos ocorreram, é mais difícil saber seus desdobramentos - ou seja, se houve uma punição para quem os incitou ou se o caso ainda corre na justiça e na justiça desportiva. Além dos casos de racismo, os autores ainda encon- traram um “crescente número de incidentes machis- tas, homofóbicos e xenofóbicos no futebol brasileiro” (Manera e Carvalho, 2018: 12), o que, embora reflita o pensamento dominante de que o ato de torcer seria um campo livre para as manifestações deste tipo, também reflete que houve um número crescente de denúncias a respeito destes casos. Devemos lembrar, que ainda há um segundo fator trazido pelo racismo, que os negros acabam tendo de encarar dentro da estrutura de falsa democracia racial que o futebol lhes oferece. Como ressalta Pires (2018), o futebol é carregado de um racismo institu- cional, que reverbera nos cargos mais altos relacio- nados ao esporte. Há uma falsa integração racial dos negros no mundo do futebol, já que estes são raros em posições como a de treinadores ou de dirigentes de um clube. Giglio et al (2014) lembram que, como a sociedade é racista, a hierarquia do futebol não pode- ria deixar de ser. Futebol, discurso midiático e racismo O fato de o futebol ser um esporte tão popular tem muito a ver com a midiatização desse. Reis (2006) ar- gumenta que um dos principais fatores que levaram o esporte a ser um sucesso são “os investimentos dos meios de comunicação para convertê-lo no eixo da in- formação esportiva, captando clientes por meio do uso deste como um importante agregado de divulgação” (Reis, 2006: 14). 155Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 Jarvie (2006) nos lembra que, até o século XIX, o esporte ocupava um lugar marginal na mídia, mas que os esportes e a imprensa moderna cresceram pratica- mente juntos, abrindo espaço para culturas que cres- ceram em torno de alguns esportes e eventos especí- ficos. Contudo, o controle dessas atividades também passa pelas grandes empresas de comunicação. A pro- dução dessas mensagens a serem consumidas passa, inevitavelmente, por um processo de “hierarquização, personalização, narrativização e enquadramento de eventos para uma audiência em particular”3 ( Jarvie, 2006: 139). Como aponta Charaudeau (2012), o discurso midi- ático está influenciado, a princípio, pela empresa que o detém. Desta forma, adota-se uma lógica calcada em uma “economia de tipo liberal” (Charaudeau, 2012: 58) na qual são buscados vários métodos para cativar seu público frente aos outros concorrentes. Para ele, “não há ‘grau zero’ da informação” (Charaudeau, 2012: 59). A partir do momento em que o discurso midiático tam- bém é uma construção feita para seduzir o leitor, Cha- raudeau (2012) ainda nos detalha que o acontecimento é sempre construído através desse discurso, já que ele nunca terá os mesmos tons absorvidos inicialmente. Isso ocorre porque ele passa pelo crivo de alguém que o relata de acordo com as suas próprias percepções. O acontecimento, assim, nunca é entregue ao leitor em seu estado bruto (Charaudeau, 2012: 95). A visão do autor, portanto, ajuda a compreender como White (2009) visualiza as hard news, que são nosso objeto de pesquisa neste trabalho. Este tipo de matéria, em sua concepção, contaria com uma lingua- gem mais objetiva que traria textos “factuais, impar- ciais, equilibrados e livres de qualquer uma das opini- ões e perspectivas próprias do autor” (White, 2009: 30). Sua esquematização, por conta de seu dito caráter de imparcialidade, é elemento central do jornalismo em diversas linguagens e culturas. Segundo White (2009), hard news é: “O hard news é um pilar central do jornalismo de notícias moderno na língua inglesa e do jor- nalismo de outras línguas e culturas. Ele é um tipo de texto no qual eventos noticiosos, como acidentes, desastres naturais, crimes, quedas de mercados de ações, resultados de eleições, descobertas médicas e atos de guerra são re- portados. A referência para esse tipo de texto, especialmente quando ele é formulado para o jornalismo de grandes empresas, é de que as instituições jornalísticas trabalham com a ob- jetividade em seus discursos - ou seja, afirmam que, na forma de reportagem, os textos jornalís- ticos são ‘factuais’, ‘imparciais’, ‘balanceados’ e livres de qualquer opinião e perspectiva própria do autor” (White, 2009: 30)4 Contudo, White (2009), assim como Charaudeau (2012), considera que esse tipo de texto pode influen- ciar, por meio da retórica, o entendimento e a visão de alguns eventos por parte do leitor, de forma que White quebra com a noção de objetividade e entende que “todos os textos, incluindo os textos jornalísticos são, de alguma forma, subjetivos, já que estão necessa- riamente condicionados pela própria identidade social do autor” (White, 2009: 31). Nas hard news, o uso da impessoalidade para redigir os textos seria chave para mascarar esses aspectos, mas as escolhas durante o texto também deixariam implícitos seus significados avaliativos. Recorro, então, à noção de voz jornalística, descri- ta em Iedema, Feez e White (1994), Martin e White (2005) e White (2009), para a realização deste tra- balho, com foco no que eles chamam de ‘voz do re- pórter’.5 Segundo estes autores, a voz do repórter está carregada de significados avaliativos, ou seja, a escolha das palavras utilizadas na notícia pode avaliar direta- mente ou abrir espaço para a avaliação do leitor sobre o alguém ou algo que está sendo retratado no texto, to- mando como base o Sistema de Avaliatividade (Martin e White, 2005; Martin e Rose, 2008). De acordo com essa noção, podemos entender que um texto, por mais que se coloque como objetivo e im- parcial, sempre produz significados avaliativos. Como apontam Iedema et al. (1994: 3), “a forma com a qual eventos são observados, interpretados e reportados sempre estará condicionada pelo background social e pela perspectiva ideológica dos jornalistas, editores e management”. A partir do Sistema de Avaliatividade, White (2009) desenvolveu uma metodologia para identifi- car essa voz jornalística nos textos de hard news que envolve: “(1) significados onde o autor, por implicação ou associação, posiciona o leitor, indiretamen- te, a adotar uma orientação de atitude particu- lar e (2) significados pelos quais as observações e pontos de vista atribuídos a algumas fontes citadas são favorecidos sobre, ou apresentados como mais críveis do que, as observações e/ou pontos de vista de outras fontes” (White, 2009: 32). Para Martin e White (2005: 183), a voz do re- pórter pode ser vista como um regime de im- pessoalidade estratégica na qual o papel da subjetividade do autor está no plano de fundo”. Eles ainda acrescentam que, desta forma, essa voz opera de maneira ideológica, já que apre- senta a si mesma como factual e neutra. “Uma evidência da efetividade dessa ideologia é en- 156 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? contrar a persistência do senso comum de que o jornalismo de qualidade é objetivo e imparcial” (Martin e White, 2005: 184). White (2009), por fim, atesta que, quando o assun- to a ser introduzido nas notícias é novo para o leitor, este pode ser profundamente influenciado por aquilo que é reportado, tanto no seu entendimento quanto nas avaliações que ele irá realizar a respeito do assunto que está sendo abordado. Se este assunto não se co- necta com as experiências passadas do leitor, existe a tendência para que ele se baseie no que está sendo lido nas hard news para construir as suas ideias. Ao argumentar sobre o jornalismo especializa- do, Lage (2008) aponta que o jornalismo espor- tivo é o “jogo ou a disputa” (Lage, 2008: 115). Com isso, ele destaca que o papel do repórter desta editoria é de concentrar as emoções e as declarações envolvidas em uma atividade des- portiva. O autor ainda ressalta que este tipo de editoria, assim como a política, admite a pre- sença de elementos exteriores aos aconteci- mentos para conferir sentido ao que é passado. Enquanto atividade social, o futebol também possui sua dimensão política (Lage, 2008). Tendo isso em mente, “qualquer jornalista terá, em algum momento, que lidar com raciocínios, interesses e manobras políticas envolvendo os fatos de sua área de atuação” (Lage, 2008: 117). Ainda é preciso entender que, ao abordar o ra- cismo, a imprensa também é refém dos padrões esperados na sociedade brasileira. Lembrando que a população branca representa o poder “so- cial, econômico, intelectual e cultural do país” (Van Dijk, 2005: 134), a população negra, es- tando à margem destes poderes, raramente tem a oportunidade de ser responsável por repre- sentar a si mesma nestes espaços. Hall (2003) destaca que as práticas discursivas utilizadas pela imprensa podem, assim, ser traduzidas ou transformadas em práticas sociais se a forma de circulação das mensagens for efetiva e que elas geram códigos que são naturalizados e, sim, transformados em uma espécie de hábito para sua audiência, bem como estes são organizados por “significados dominantes ou preferidos” (Hall, 2003: 123). Alguns estudos como Borges e Borges (2011), que trazem uma coletânea de textos a respeito da relação da mídia com o racismo no Brasil, Carneiro (2011), que discute o racismo, o sexismo e a desigualdade no Brasil com exemplos do mundo da propaganda, entre outros, já se debruçaram a compreender esta complexa rela- ção descrita, na qual existe uma liberdade para repre- sentar o outro, tendo um “poder para marcar, atribuir e classificar” (Hall, 1997: .239) a partir de estereótipos imaginados ou que refletem aquilo que é percebido como real. Metodologia Este trabalho, portanto, tem como objetivo a busca por ocorrências de Julgamento em textos jor- nalísticos a respeito do episódio de racismo sofrido pelo jogador brasileiro Daniel Alves, a fim de identi- ficar como este foi retratado pela imprensa à época e como a sua abordagem influencia no debate a respei- to do racismo no futebol. Esta é uma análise ampara- da pela Linguística Sistêmico-Funcional (Halliday e Matthiessen, 2014), sobretudo pelo Sistema de Tran- sitividade, bem como pelo Sistema de Avaliatividade (Martin e White, 2005), a partir do qual entendemos Julgamento como uma região semântica do subsis- tema de Atitude. Além de Silva Pimenta (2019), esta metodologia também foi trabalhada em Lima-Lopes e Silva Pimenta (2017). Para este trabalho, analisei manualmente alguns trechos aleatoriamente selecionados do corpus cole- tado em Silva Pimenta (2019), que conta com 21.387 formas, 1.014 sentenças e 25.127 palavras construídas a partir de 65 artigos de hard news publicados de forma online no Brasil6, compilados com a plataforma Sketch Engine7. O padrão entre os trechos selecionados é de que estes se tratam dos discursos produzidos sobre o caso de Alves pela voz do repórter. Com os recursos da LSF e do Sistema de Ava- liatividade podemos traçar os primeiros passos do que pode se tornar uma metodologia para desvelar os aspectos sociológicos do futebol, que estão enrai- zados nos discursos midiáticos trazidos a respeito deste esporte. Isso porque essas teorias enxergam a linguagem em uma perspectiva sociossemiótica (Halliday e Hasan, 1989), ou seja, entendemos que a comunicação se dá por um sistema, sendo ele repleto de significados de cunhos sociais e culturais. Tendo o esporte como uma atividade comunicativa e “um mundo social significante que constitui problemas do mundo real” (Caldwell, Walsh, Vine e Jureidini, 2016: 4) podemos compreender, que ele pode ser lido como consequência da sociedade no qual ele se encontra. O Sistema de Transitividade (Halliday e Matthies- sen, 2014), um dos sistemas que englobam a LSF, nos ajuda a entender a função dos processos verbais den- tro de uma sentença. Por sua vez, o Sistema de Ava- liatividade, desenvolvido com base na LSF, lida com a linguagem emocional de um texto. Juntos, ambos os sistemas são capazes de nos trazer informações impor- tantes sobre a voz que está sendo utilizada para contar 157Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 uma história e como esta influencia na interpretação do discurso trazido. Halliday e Matthiessen (2014) dividem a linguagem em metafunções. O Sistema de Transitividade é ligado, portanto, a uma metafunção que dá conta dos signifi- cados ideacionais da linguagem. Este fator se relaciona com a visão de mundo traduzida no texto. Além dos verbos trazidos nas sentenças, que aqui chamamos de processos, o Sistema de Transitividade ainda conside- ra importante a análise dos grupos nominais, que são os participantes da ação e os grupos adverbiais, que são a ampliação daquilo que é comunicado, tendo o processo verbal como ponto de partida (Lima-Lopes, 2005). O quadro abaixo exemplifica o Sistema de Tran- sitividade e alguns exemplos de como ele deve ser lido: O Sistema de Avaliatividade (Martin e White, 2005), por sua vez, está no nível dos significados da linguagem. Ele pode ser conectado, mas não exclu- dente da função interpessoal da linguagem descrita por Halliday e Matthiessen (2014). Neste sistema, a semântica se faz importante para compreender três categorias que, segundo White (2003: 1), são capazes de influenciar aqueles que recebem a mensagem a ser passada. Essas categorias são a Atitude, que explicita as avaliações feitas sobre algo ou alguém, o Engajamento, que traz as outras vozes que estão presentes no texto e a Gradação, que mostra qual é a intensidade da avalia- ção que está sendo feita. Neste artigo, iremos nos aten- tar apenas ao subsistema Atitude, mais especificamen- te em uma de suas categorias semânticas, o Julgamento - que está diretamente ligado à avaliação feita em re- lação ao comportamento. As outras categorias deste subsistema são o Afeto (avaliação a partir de sentimen- tos positivos ou negativos) e a Apreciação (avaliações de cunho estético). As categorias de Julgamento e seus exemplos estão exemplificadas no quadro abaixo: Ver quadro 2 (próxima página) Para este trabalho, parte-se, portanto, da hipótese de que os Julgamentos, mesmo estando presentes em textos supostamente neutros (Martin e White, 2005), são denunciados por meio de palavras e expressões es- pecíficas que modificam o que está em jogo na relação entre o texto produzido e o seu leitor (White, 2003), levando este a pensar de uma ou de outra forma so- bre aquilo que foi lido. Segundo White (2003: 8), esses indícios “são produzidos por significados superficial- Quadro 1 - Processos descritos pelo Sistema de Transitividade, significados, participantes e exemplos Processos Significados Participantes da ação Exemplos de processos verbais Materiais processos que dão conta das ações do indivíduo que afetam o mundo exterior, podendo ser transformativos ou cria- tivos Ator Meta Escopo Recebedor Cliente criar, aumentar, abrir, decolar Mentais processos do mundo interior, experien- ciados por quem os executa Experienciador Fenômeno fantasiar, gostar, amar, ouvir Relacionais processos da identificação ou atribuição de um indivíduo com algo ou a algo Portador Atributo Identificado Identificador Possuidor Possuído ser, ter, estar Verbais processos, entre os mentais e os relacio- nais, que realizam significados refer- entes ao dizer Dizente Receptor Alvo Verbiagem falar, dizer, contar, relatar Comportamentais processos nos quais as ações do mundo interior são expostas no mundo exteri- or; entre materiais e mentais Comportante Comportamento dançar, espirrar, dormir Existenciais processos do existir Existente haver, existir, ter Adaptado de: Halliday e Matthiessen, 2014, Fuzer e Cabral, 2014 158 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? mente neutros, ideacionais, mas que, apesar de tudo, possuem, na cultura, a capacidade de provocar respos- tas de julgamento (de acordo com a posição social/cul- tural/ideológica do leitor)”. Análise dos dados Em Silva Pimenta (2019) pude identificar, que as matérias são redigidas, em grande parte, em um tom que realiza julgamentos ao jogador nos campos positivos da normalidade e da tenacidade. Isso está relacionado por meio de processos materiais trans- formativos impressos ao jogador, no qual ele é o Ator e o racismo ou quem o cometeu é a Meta, bem como processos comportamentais acompanhados de ele- mentos circunstanciais de modo que, adjetivados ou não, explicitam as avaliações de julgamento mediante o contexto de situação no qual esses processos foram vividos. Quando os textos tratam da rejeição de Alves à campanha #SomosTodosMacacos são trazidos proces- sos verbais, que envolvem o jogador enquanto dizente e a campanha como alvo, acompanhados ou não por processos comportamentais, que refletem o desloca- mento de Alves em relação à campanha que lhe diz res- peito, embora sua atitude, expressa em processos ma- teriais, seja colocada como diretamente responsável pela propagação da hashtag. Há ainda, no corpus, ava- liações por meio de processos relacionais atributivos. Tendo essas análises iniciais realizadas, exploro, por meio dos excertos e concordâncias destacadas abaixo, provenientes do corpus coletado, alguns exem- plos para compreender estes casos destacados. (1) O lateral – um baiano de 30 anos, pardo, como se diz nos censos, e de olhos verdes – (2) reagiu de forma inesperada para o público e certamente também para o agressor: (3) pegou a fruta, descascou-a e a pôs na boca. No excerto 1, a voz do repórter utiliza da adjeti- vação de Daniel Alves para minimizar sua negritude, utilizando o seu fenótipo para tal, destacando caracte- rísticas físicas como “pardo, como se diz nos censos” e “de olhos verdes”, característica que o aproxima de alguma forma a um estereótipo embranquecido; con- tudo, sem deixar de assumir que o jogador em questão é negro. Já no excerto 2, utiliza-se um processo comporta- mental atribuído a Daniel Alves, a reação, para salien- tar um julgamento positivo no campo da normalidade, ou seja, que o jogador teria fugido ao comum em reagir a essa maneira, que foi “inesperada para o público e certamente também para o agressor” na visão da voz jornalística em questão. Este julgamento é ressaltado pela circunstância, que se faz parte importante para a construção da ideia exposta pelo repórter. Na circuns- tância de modo “de forma inesperada”, reforça a ideia de um julgamento implícito na frase, embora este não esteja diretamente adjetivado. No excerto 3, os processos materiais de Alves em relação à fruta (“pegar”, “descascar”) são destacados como forma de ressaltar que o jogador teria descons- truído a forma de agressão, completando a ideia ante- rior passada pela circunstância destacada, ao transfor- mar aquilo que lhe fora atirado como ofensa, o que é completado pelo processo material de comer. A voz do repórter também parece induzir o leitor a observar a situação, em uma ótica na qual Daniel Alves teria des- montado a ofensa ao ressignificar a fruta: no momento em que ela fora atirada, ela estava significada como um ato de racismo. No momento em que Daniel Alves a comeu, ela significava apenas uma fruta. (4) Ao se deparar com a fruta na sua frente, o jo- gador da Seleção se abaixou, pegou a banana e a comeu, sem qualquer cerimônia. (5) Enquanto mastigava, ele bateu o escanteio. O trecho destacado no excerto 4 também trabalha com julgamentos posicionados para descrever a atitu- de do jogador perante o caso. Esses julgamentos são, mais uma vez, expostos a partir de processos compor- tamentais e materiais atribuídos a ele, que foram feitos “sem qualquer cerimônia”, o que o colocaria mais uma vez no campo positivo da normalidade, já que a voz jornalística destaca este fato, com sua própria ótica a respeito da atitude do jogador, aqui vista como inco- mum. Mais uma vez notamos a importância das cir- cunstâncias para embasar a ótica do repórter a respeito Quadro 2 - categorias de Julgamento e seus principais exemplos Estima Social Julgamento Positivo Julgamento Negativo Normalidade Capacidade Tenacidade inovador, audacioso esperto, sagaz fiel, corajoso esquisito, antiquado idiota, sem- noção covarde, inibido Sanção Social Julgamento Positivo Julgamento Negativo Veracidade Propriedade honesto, franco justo, generoso mentiroso, manipulador corrupto, imoral Fonte: adaptado de Martin e White, 2005; Silva Pimenta, 2019 159Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 da situação, quando este coloca que o ato foi realizado “sem qualquer cerimônia”. Essa circunstância, além de trabalhar como significado avaliativo, também mini- miza o ato de racismo sofrido. No excerto 5, a voz segue sua visão sobre o fato ao ressaltar que Alves inseriu o ato dito incomum em uma jogada, como se o ocorrido não atrapalhasse de algu- ma maneira o seu posicionamento no jogo - como se o ato racista não influenciasse na atuação de Daniel em campo e na linguagem que este conversa: o futebol. A circunstância “enquanto mastigava” ajuda a reforçar o julgamento de tenacidade, já que passa a ideia de simultaneidade. (6) Daniel Alves deu mostra de que é superior a esse tipo de discriminação racial e ajudou sua equipe a vencer o Villarreal por 3 a 2, com duas assistências para gols. (7) Sem pestanejar, Dani8 pegou a fruta, a co- meu e efetuou a cobrança, (8) num “dar de om- bros” para o ato preconceituoso. No excerto 6, o ato de racismo é minimizado, com o julgamento da voz do repórter a respeito de Daniel Alves, que ao ser classificado em um processo relacio- nal atributivo como “superior”, é colocado no campo positivo da normalidade. Neste caso, a atitude do joga- dor perante ao ato teria mais peso para a voz do que o ato em si, o que é apoiado também pela participa- ção de Alves na partida. O excerto coloca, portanto, o racismo como fator secundário e salienta a vitória do Barcelona sobre o Villarreal e como Alves também co- laborou para essa vitória (“com duas assistências para gols”). A própria colocação do ato como “esse tipo de discriminação racial” também já o minimiza. O simbo- lismo de atirar uma banana contra um jogador negro durante uma partida de futebol não é um ataque indi- vidual, mas coletivo a todo um conjunto de pessoas, como é previsto na lei 7.716/1989, que regulamenta o crime de racismo no Brasil e, mesmo que este não seja o contexto no qual ocorreu a ação é o contexto no qual ela está sendo relatada. No Brasil, o racismo é crime inafiançável e imprescritível e passível de pena de um a três anos, de acordo com a mesma lei. Os excertos 7 e 8 trabalham da mesma maneira. A circunstância de modo “sem pestanejar”, que completa os processos descritos a seguir, também opera por sus- tentar a mesma lógica de irreverência do jogador dian- te do ato. Ao mesmo tempo, a adjetivação do ocorrido no termo “ato preconceituoso” opera da mesma forma que o excerto 6, reduzindo o caso de racismo a uma mera banalidade em relação ao que Daniel Alves exe- cutou em campo mesmo após sofrer a ofensa. O “dar de ombros” também funciona como minimizador do racismo neste excerto. (9) Surpreendentemente, o lateral não hesitou e reagiu à agressão de maneira bastante espiri- tuosa: (10) pegou a fruta, descascou-a e comeu, calmamente, antes de realizar a cobrança. (11) Nada como uma boa ironia para combater a ignorância. (12) Um protesto original, inteligente, muito mais contundente contra o racismo, por seu ca- ráter inovador, do que discursos ou denúncias. Os excertos selecionados acima buscam ressal- tar uma certa importância do protesto em campo de Alves, em detrimento de outros contra o racismo no futebol. Nos excertos 9 e 10, os julgamentos a respei- to de Alves no campo positivo da normalidade (“sur- preendentemente”, “calmamente”) e da tenacidade (“maneira bastante espirituosa”), sustentados por cir- cunstâncias de modo que advém da visão do repórter a respeito do ato são utilizados para antecipar o ponto destacado pela voz em questão, que é deixado explí- cito no excerto 11 (“Nada como uma boa ironia para combater a ignorância”). O excerto 9, de alguma for- ma, também se relaciona com o excerto 7, já que “sem pestanejar” e “não hesitou” representam o mesmo sen- tido, mas em diferentes padrões gramaticais. Novamente são ressaltados os processos materiais do jogador em relação à banana que lhe fora atirada para minimizar o ocorrido, que também são acompa- nhados pelo seu processo material em jogo (“realizar a cobrança”). No excerto 11, a voz do repórter também trabalha por reduzir o ato de racismo como uma “ig- norância” - o que fica perceptível como um atributo impresso a alguém em individual ou a um grupo. Com a circunstância de causa “nada como uma boa ironia”, mais uma vez o protesto em campo é alçado ao campo positivo da normalidade e ressaltado com uma impor- tância maior em relação a outros protestos. O excerto 12 complementa essa ideia, mas qualifica diretamente o processo, tornando a identificação do julgamento em questão explícita. Com os adjetivos “original”, “inteli- gente”, “mais contundente” e “inovador”, o campo po- sitivo da normalidade impresso para voz do repórter é nítido, bem como a ideia de que este seria um melhor protesto do que outros, que ele cita diretamente (“dis- cursos ou denúncias”). (13) A cena não é inédita no futebol. (13) Provo- cações desse tipo têm se alastrado no esporte. (14) Na sequência da jogada, o brasileiro bateu dois escanteios seguidos como se nada tivesse acontecido. (15) No segundo deles, já com a banana digeri- da, saiu o segundo gol do Barcelona. 160 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? O excerto 13, por sua vez, usa uma circunstância de localização (“no futebol”) para sustentar o pro- cesso relacional, dando a impressão de que a “cena”, ou seja, o ato de racismo, ocorre apenas dentro de um espaço determinado, que é o futebol. Colocar que a cena “não é inédita”, implica em uma tentativa de diminuir o ato. No excerto 13, uma circunstância de localização parecida, “no esporte”, ajuda a ampliar a ideia trazida a priori. O processo material trazido em “alastrado” dá a impressão de que isso é um fato novo, que está ocorrendo há pouco tempo nos está- dios - quando seria mais certo dizer que este fato está se tornando mais comum na Europa devido a uma crescente onda de nacionalismo e um mercado do futebol sustentado pela ida de jogadores estrangeiros para os times deste continente, como é salientado an- teriormente neste trabalho. O excerto 14 já insere o ato de racismo como um elemento intrínseco ao jogo, ao qualificá-lo como “jo- gada”. Mais uma vez, a circunstância de modo do ato de Daniel Alves (“como se nada tivesse acontecido”) ajuda a operar um julgamento positivo no campo da normalidade, bem como também opera como elemen- to de negação do racismo. Algo semelhante ocorre no excerto 15, “já com a banana digerida”, dando a enten- der que o ato faz parte do passado e que o que era mais importante na visão da voz do repórter - que é a par- tida de futebol - seguiu sem complicações advindas do racismo sofrido. Essa voz carrega, portanto, uma com- paração negativa com outros casos de racismo no fu- tebol que, ao terem outras respostas, afetaram o modo com o qual a partida ganha sequência em campo. Considerações finais Por meio da análise do discurso midiático, em tor- no do caso de racismo sofrido por Daniel Alves, esta pesquisa pretendeu mostrar como alguns padrões de representação do racismo no futebol estão enraizados tanto na imprensa quanto no imaginário brasileiro. Uma vez que “o racismo fornece o sentido, a lógica e a tecnologia para a reprodução das formas de desigual- dade e violência que moldam a vida social contempo- rânea” (Almeida, 2019: 15), é possível observar que a presença deste na estrutura de uma sociedade se mos- tra visível na linguagem em uso. Há um pensamento constante de quem se posicio- na como ‘vítima’ do ato é inconveniente - conveniente seria apenas aquele que “dá de ombros”, como o ato de Alves foi interpretado por grande parte dos discur- sos coletados no corpus. Os julgamentos conferidos ao jogador acabam por colocá-lo no papel de negro mo- delo, já que este não briga por sua posição e nem pela sua voz - simplesmente as ignora. A forma com a qual a imprensa abordou o caso também pareceu trazer uma espécie de ‘apagamento’ dos casos de racismo poste- riores, já que Daniel Alves os teria derrotado. A grande parte de julgamentos que envolvem Da- niel Alves em relação à sua atitude no caso de racismo o colocam em dois campos positivos: normalidade e capacidade. Quando se fala em campos positivos de julgamento, quer dizer que características positivas relacionadas com estes campos são ressaltadas, mas, nem sempre, os julgamentos positivos querem dizer algo necessariamente bom. Tirar Alves do campo da normalidade, ou seja, tra- tá-lo como irreverente, é sustentar a lógica que está presente em torno dos demais jogadores que sofrem racismo no futebol. Como é possível observar no cor- pus, irreverente é aquele que ‘dá de ombros’, protesta de uma maneira que agrada aos outros por não se po- sicionar como vítima, ao mesmo tempo em que outros jogadores que se colocam nessa posição - como seria de direito desses - costumam ser rechaçados ao tentar combater o racismo sofrido. O elogio a essa característica de Alves aparece tan- to na voz dos repórteres quanto nas vozes trazidas ao texto para sustentar os argumentos. Enquanto nas vo- zes dos repórteres esse julgamento é implícito, menos adjetivado, as vozes dos entrevistados operam por re- forçá-lo a partir da adjetivação. Nota-se que, enquanto o discurso midiático não conta com a adjetivação direta como padrão, as cir- cunstâncias cumprem um papel importante para complementar os julgamentos implícitos neste. Cir- cunstâncias de modo, principalmente, cumprem esse papel, já que, ao indicarem a forma com a qual Alves completara a ação - muitas dessas vezes, imaginada (“de forma inesperada”, “sem qualquer cerimônia”) operam da mesma maneira que a adjetivação para o sentido das sentenças. Falar de ‘capacidade’ e de ‘tenacidade’, outros jul- gamentos positivos que aparecem no corpus é uma forma de elogiar a força e a inteligência de Alves. Este argumento pode parecer inofensivo, mas é uma ma- neira de reforçar padrões de masculinidade, que são cobrados dos jogadores de esporte de contato. Como nos conta Dunning (2004), a origem dos esportes de contato está calcada em padrões esperados da mascu- linidade. Para o autor, o início dos jogos populares ex- pressava “uma forma razoavelmente extremada de pa- triarcado” (Dunning, 2004: 238). Logo, elogiar a força de Alves na atitude e minimizar aqueles que se posicio- nam como vítima ou que ficam abalados com o racis- mo sofrido, também sustenta este modelo de patriar- cado. Também se espera um tipo de força ainda mais potencializada por parte dos negros, especialmente dos homens, já que, segundo hooks (2004), enquan- 161Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 to as mulheres negras encontram literatura disponível para ajudá-las a desconstruir estes padrões, os homens negros pouco têm espaço para discutir suas questões e continuam jogando aquilo que é trazido pelo senso comum. Um dos destaques dessa análise também é o termo ‘pardo’ sendo empregado para descrever o jogador de acordo com as vozes dos repórteres. O embranqueci- mento de pessoas pardas na mídia brasileira é um pon- to ressaltado por diversos estudiosos do tema, como Carneiro (2011), que argumenta que a miscigenação no Brasil exclui ou embranquece negros de pele clara nos contextos midiáticos. O negro da representação midiática seria um negro único e estereotipado, mar- cado pela diferença (Costa, 2012: 58), enquanto os personagens brancos seriam retratados em toda a sua diversidade e complexidade (Carneiro, 2011). Assim, a branquitude é retratada de forma “diversa e policro- mática”, enquanto a negritude “padece de toda sorte de indagações” (Carneiro, 2011: 71). Assim como o estudo de Florenzano (2017) nos conta que Pelé era tido pela imprensa como um “negro modelo dos brancos”, algo que Fanon (2008) destaca para revelar qual é o negro aceito pela sociedade, nes- te caso de racismo, Alves também fora retratado dessa forma, de acordo com a análise realizada. Em alguns trechos, sua origem é ressaltada para, posteriormente, ser conectada com a atitude que ele tomou em campo. Há resquícios da lógica meritocrática que nos traz Reis e Escher (2006) neste discurso: este teria sido um jo- gador que se esforçou, alcançou o sucesso e joga o jogo de acordo com aquilo que é esperado pela sociedade. Por estes discursos apresentados terem sido resul- tado de uma compilação de notícias em um corpus - ou seja, são discursos de diferentes origens - nota-se tam- bém que a democracia racial imaginada (Guimarães, 1995) domina o discurso midiático. Na mesma toada da campanha que sucedeu o ato, Daniel Alves tem sua atitude louvada por ‘mostrar que é igual’. Com os dados, também pude perceber que a im- prensa opera para dizer que o racismo é um ato co- metido apenas por algumas únicas pessoas ao invés de tratar este como um problema sistêmico ou até mesmo como crime. Em Silva Pimenta (2019), mostro que a análise do corpus a respeito da palavra ‘racismo’ em um software de corpus delimita o quão fraca é a asso- ciação do ato racista com o ato criminoso, tanto neste corpus quanto em um corpus geral de língua portu- guesa analisado. Por meio desses discursos midiáticos, já que Alves foi retratado como alguém ‘especial’, ‘fora do comum’, por ter comido a banana em campo ocorreu uma cons- trução de que a resposta do jogador teria sido uma so- lução definitiva contra o racismo no futebol. Concluo, portanto, que a linguagem utilizada pelos discursos midiáticos opera para reforçar os padrões de represen- tação acerca do racismo no futebol. Com os dados obtidos nesta pesquisa, acredito que haja um desenho para uma metodologia de análise de aspectos sociológicos do esporte e do racismo enquan- to ideologia vigente por meio da linguagem intrínseca. Este é um objetivo de trabalho a ser ampliado em pes- quisas futuras, com o aprofundamento do referencial teórico acerca da sociologia do esporte, da Linguística Sistêmico-Funcional e do Sistema de Avaliatividade. Submetido em 30 de julho de 2020 Acetio em 31 de março de 2021 Notes 1.  Disponível em: http://g1.globo.com/economia/midia-e-marke- ting/noticia/2014/04/daniel-alves-fez-gente-soltar-antes-diz-cria- dor-da-somostodosmacacos.html Acesso em 03 Jun 2020 2.  VEJA. São Paulo: Abril, edição 2372, ano 47, n. 19, 7 maio 2014. 134 3.  “The production of the media message invariably involves hierarchisation, personalisation, narrativising and framing of events for a particular audience” ( JARVIE, 2006, p. 139). 4.  “The hard news report is a central pillar of modern, English- language news journalism and of the journalism of many other languages and cultures. It is by means of this type of text that prototypical “news” events, i.e. accidents, natural disasters, crimes, stock market crashes, election results, medical breakthroughs and acts of warfare, are reported. It is by reference to this type of text, especially as it is formulated in the “broadsheet” media, that journalistic institutions assert the “objectivity” of their discourse - i.e. they claim that, in the form of news report, journalistic texts are “factual”, “impartial”, “balanced” and free of any of the journalistic author’s own opinions and perspectives” (White, 2009, p. 30) 5.  Para os autores, a voz jornalística está dividida em voz do repór- ter (reporter voice) e voz do escritor (writer voice). A segunda ainda conta com mais duas divisões: a voz do correspondente (cor- respondent voice) e a voz do comentarista (commentator voice). 6.  Disponível em: Acesso em 30 Jul 2020 7.  http://www.sketchengine.eu 8.  Não fica claro se o uso de “Dani” pela voz do repórter indica intimidade e proximidade ou se apenas se refere à forma com a qual o próprio jogador se coloca publicamente, que é “Dani Alves”. 162 Izadora Silva Pimenta - Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? Referências Bibliográficas Almeida, S. (2019). Racismo estrutural. Pólen Produção Edi- torial LTDA. Borges, R. C. S., & Borges, R. S. (Eds.). (2012). Mídia e ra- cismo. ABPN. Caldwell, D., Walsh, J., Vine, E. W., & Jureidini, J. (Eds.). (2016). The discourse of sport: Analyses from social linguistics. Taylor & Francis. Campos, M. S., & Machado, P. M. (2014). 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Resumé | Résumo | Abstract Racismo no futebol: o que a linguagem do discurso midiático pode nos dizer? Le racisme dans le football : que nous peut nous apprendre le langage des médias ? Racism in soccer: what the language of the media tells us about contemporary Brazil. Pt.O presente artigo tem como objetivo analisar os Julgamentos (Martin e White, 2005) presentes no discurso midiático a respeito de um caso de racismo sofrido pelo joga- dor Daniel Alves em 2014, à época, no Barcelona. A análise foi feita a partir do frag- mento de um corpus coletado em minha pesquisa de mestrado (Pimenta, 2019), compilado com a plataforma Sketch Engine a partir de 65 artigos de hard news sobre o tema, publicados de forma online no Brasil, totalizando 21.387 formas, 1.014 sentenças e 25.127 palavras. Para os trechos ana- lisados neste artigo, considera-se apenas os trechos das notícias nos quais a voz do repórter está sendo utilizada em primeiro plano. A análise é realizada a partir da Linguística Sistêmico-Funcio- nal (Halliday e Matthiessen, 2014) e do Sistema de Avaliatividade (Martin e White, 2005), a partir dos quais a linguagem é visualizada como um sistema sociossemiótico, ou seja, entende-se que a comunicação se dá por um sistema, sendo ele repleto de significados de cunhos sociais e culturais. O trabalho também se baseia na hipótese de que as hard news nunca são neutras (White, 2003) e, portanto, passíveis da presença de significados avaliativos ao longo do texto. Para compreender o contexto no qual as notícias estão sendo relatadas, há ainda uma compreensão inicial sobre alguns preceitos das relações raciais no Brasil e no futebol. Os resultados mostram que a linguagem utili- zada pelo discurso midiático opera como fator de reforço para padrões de representação sobre o racismo no futebol e seus aspectos presentes na sociedade brasileira. Uma vez em que o racismo é base para as formas de desigualdade e violência dessa sociedade (Almeida, 2019), é possível obser- var que a presença deste na estrutura se mostra visível na linguagem em uso. Os dados obtidos nesta pesquisa oferecem, ainda, um desenho para uma metodologia de análise de aspectos socioló- gicos do esporte e do racismo como ideologia vigente por meio da linguagem intrínseca. Palavras-Chave: Linguística Sistêmico-Funcional, Sistema de Avaliatividade; Discurso midiático; Racismo; Futebol Fr.Cet article analyse les jugements (Martin et White, 2005) présents dans le discours médiatique autour d’un cas de racisme subi par le Brésilien Daniel Alves en 2014, à l’époque joueur du FC Barcelone. L’analyse se penche sur une partie d’un corpus plus large compilé dans le cadre d’une recherche de master (Pimenta, 2019) à l’aide de la plateforme Sketch Engine. Ce corpus de 65 articles de hard news sur le sujet, publiés en ligne dans des médias brésiliens, est constitué de 21 387 formes, 1 014 phrases et 25 127 mots. L’analyse porte unique- ment sur les extraits où la voix du journaliste apparait au premier plan. L’apport méthodologique repose sur la linguistique systémique-fonctionnelle (Halliday et Matthiessen, 2014) et sur la théorie de l’évaluation (Martin et White, 2005), où le langage est perçu comme un système socio-sémiotique chargé de significations de natures sociale et culturelle, au travers duquel se réalise la communi- cation. Notre étude part de l’hypothèse que les hard news ne sont jamais neutres (White, 2003). Bien au contraire, elles sont sujettes à la présence de significations évaluatives tout au long du texte. Ainsi, pour appréhender le contexte dans lequel sont rapportées les informations d’actua- lité, il importe également de comprendre certains préceptes des relations raciales au Brésil et dans le football. Les résultats montrent que le langage produit par le discours médiatique renforce les standards de représentation du racisme dans le football et les aspects de ce racisme qui caracté- risent la société brésilienne. En effet, le langage des médias illustre bien le fait que le racisme est à la base des formes d’inégalité et de violence de cette société (Almeida, 2019). A partir des données 165Sur le journalisme - About journalism - Sobre jornalismo - Vol 10, n°2 - 2021 recueillies, nous avons pu construire un modèle méthodologique d’analyse, par le biais du langage et des traits qui lui sont intrinsèques, capable de révéler certains aspects sociologiques du sport et du racisme, qui s’avèrent constituer l’idéologie dominante. Mots-clés  : Linguistique systémique-fonctionnelle  ; Théorie de l’évaluation  ; Discours média- tique ; Racisme ; Football En.This article analyzes the judgments (Martin and White, 2005) developed in the media coverage of a case of racial discrimination experienced by Brazilian Daniel Alves in 2014, at the time playing for the FC Barcelona. The analysis is based on a segment of a corpus compiled as part of a master’s research (Pimenta, 2019) using the platform Sketch Engine. The corpus is composed of 65 hard news articles published online in Brazilian me- dia, which break down into 21,387 forms, 1,014 sentences and 25,127 words. The analysis focuses exclusively on extracts in which the journalist’s position is made clear. Research methodology is based on systemic-functional linguistics (Halliday and Matthiessen, 2014) and appraisal theory (Martin and White, 2005), which consider language as a socio-semiotic system loaded with so- cial and cultural meanings, through which communication occurs. The research is based on the hypothesis that hard news is never neutral (White, 2003). On the contrary, hard news articles include an evaluative dimension throughout the reports. Understanding some of the precepts of race relations in Brazil and in soccer is central to better understant the context in which the news is reported. Results of the analysis show that the language produced by media coverage reinforces standards of race representation in soccer, which is part of the larger racial discrimination dyna- mics that characterize contemporary Brazilian society. The language used by the media indeed illustrates how racial discrimination is a root cause of inequality and violence in Brazilian society today (Almeida, 2019). Based on the data collected, a methodological model of analysis was deve- loped through language and its intrinsic features, allowing to reveal specific sociological aspects of sports and racial discrimination, which still today remains a dominant ideology. Keywords: Systemic-Functional Linguistics; Appraisal Theory; Media discourse; Racism; Soccer